Atenção: antes de começar, saiba que este texto foi escrito por uma designer com “alguma” experiência em aplicações para web – uma pessoa que programa (modéstia à parte) bem e que tem um mestrado em ergonomia. Este texto mostra as mudanças em um projeto motivadas pelo compromisso da nossa personagem de aderir às “regras” do design de interfaces. Este foi o primeiro aplicativo para mobile que ela projetou, e é assim que ela se sente:

Vamos deixar então que nossa designer conte como foi…
Design de interfaces para mobile (no Brasil)
Conheci, ano passado, três caras que estavam a fim de desenvolver aplicativos para celular. Acho que formamos um excelente time, pois reunimos experiência e conhecimento técnico. Além disso, temos alguém no grupo com um “feeling para negócios” (sorry, Marco, não sei descrever de outra forma), o que é pré-condição para engrenar. Depois de muitas reuniões (do Marco), conseguimos vender um projeto, cujo briefing descrevo: criar um aplicativo para ser usado em eventos. As funcionalidades oferecidas são:
- Receber avisos dos organizadores (por exemplo: alteração na agenda).
- Receber avisos promocionais dos patrocinadores.
- Fazer perguntas aos palestrantes.
- Trocar cartões de visita virtuais.
- Enviar convites para meetings dentro da área do evento.
O rationale é: pessoas que vão a eventos têm interesses comuns, mas nem sempre se conhecem – aliás, muitos vão a estes eventos para se conhecerem. Porém, o sistema de crachás de identificação tem dois problemas: algumas pessoas simplesmente não os usam e é constrangedor ficar lendo o crachá dos outros. O aplicativo seria uma forma de fazer com que as apresentações fossem mais eficientes, permitindo que os participantes escolham com quem querem manter contato.
A restrição explícita: deve funcionar na maior parte dos aparelhos. Minha restrição explícita: deve ser boa usabilidade. Lógico.
Claro, eu nunca havia feito nada para mobile, mas tinha uma idéia de mais algumas restrições:
- Interação pelas teclas de direção; seleção pela tecla do meio. Sem touch.
- Otimizar a transmissão de dados. Toda vez que você envia ou recebe dados, vê uma mensagem desagradável avisando da conexão. Isso, mais importante do que o custo em reais, gera desconfiança: “porque estou toda a hora sendo avisado disso?”.
Ok, vamos para o Balsamiq (que só tem iPhone como modelo, mas abstrai, ok?) ver como fica. Veja aí como eu desenhei a área das “Perguntas”.

Para você entender meu raciocínio, vou colocar o processo em forma de diálogo: eu e um Balde de Água Fria.
Eu – Vamos usar tabs, certo? Isso permite que o usuário veja em que sessão ele está. Quando ele quiser fazer “perguntas” (por isso o título, entende?), escolhe a palestra e clica nela (com o botão do meio). Isso faz com que ele veja a tela da direita: ali ele pode enviar uma pergunta para o palestrante.
Balde de Água Fria – Hummm, mas ele também pode enviar respostas para enquetes e a avaliação da palestra. Você sabia disso desde o início, não foi idéia do cliente na última hora.
Eu – Certo. Quem sabe então a gente coloca uma barra de botões?
BAF – Não cabe… Muito texto nos labels…
Eu – Vamos colocar uns ícones…
BAF – Esses ícones do Balsamiq são uma caca…
Eu – É eu sei. Mas a gente vê uns legais depois…
BAF – Ok, mas você está com um problema de coerência…
Eu – O QUÊ? DE COERÊNCIA?
BAF – Pois é… Você está usando tabs para alternar entre telas. E sua barra de botões tem o mesmo comportamento. Além disso, na tela de “Convites recebidos”, por exemplo, você está usando uma barra de botões com ícones para operar sobre um dado (o cartão de apresentação). Quer dizer que em uma área a barra de botões troca de tela e na outra ela sinaliza operações possíveis sobre um dado.

BAF – E não é só isso. Olhando bem, parece que você também tem um problema de consistência.
Eu – O QUÊ? DE CONSISTÊNCIA?
BAF – Sim. Veja a tela “Perguntar”. Aqui você usa texto no botão. Afinal, é texto ou ícone?

Eu – P*** m***, é verdade.
Eu – Ah, já sei! Vamos fazer assim, ô:

EU – Quando o usuário clicar na palestra para fazer uma pergunta (ou enquete ou avaliação), as tabs vão mudar de label, e para ele voltar, é só clicar na tab bem à esquerda que diz “<<”.
BAF – Nossa… Você realmente se preocupa com a coerência. O problema foi mesmo resolvido, afinal agora você só tem tabs. Só que agora você tem dois níveis de hierarquia que parecem ser um só. Além disso, você alterou o comportamento esperado de um componente (o tab).
Eu – P*** m***, HIERARQUIA e MUDANÇA DE COMPORTAMENTO? Dá um descanso, BAF!
BAF – Sorry, mas você pediu par eu ser chato…
Eu – Tá bom.
Eu – Olha só, podemos usar janelas modais! Quando o usuário for enviar a pergunta, por exemplo, uma nova janela será aberta. A gente pode deixar o que está atrás meio transparente, com um blur, sabe? Aí o usuário saberia que foi para outro nível de edição.

BAF – Entendo. Assim você não muda o comportamento dos tabs e preserva a hierarquia.
Eu – Isso mesmo. Sabia que você iria entender.
BAF - Como fica quando houver três níveis de hierarquia?
Eu – Não haverá.
BAF – Você sabe que não deve dizer isso…
Eu – Vá à merda, BAF.
BAF – Ok. Você sabe que a luminosidade pode atrapalhar a leitura destas janelas com transparência, não sabe?
Eu – Vá à merda, BAF.
E esta é a história da primeira versão do layout no Balsamiq. Algum tempo depois, o João (nosso desenvolvedor-java-rulez) fez a seguinte observação:
João – Sabe, Gabi, essa tela de buscar aqui está complicada de navegar… Acho que tem problemas de usabilidade… O usuário tem que clicar várias vezes até chegar no botão de buscar. Daí eu consertei isso colocando um menuzinho-aqui-assim.
OK, PARA TUDO.
BAF, COMO É QUE VOCÊ NÃO ME AVISOU???
BAF – Bem, não me dei conta disso.
EU – Mas “menu”? O usuário não tem como ver o que tem no menu. Depois, ele precisa DESPERDIÇAR um clique só par ver o que tem no menu. E se o menu tiver mais de um nível, ele vai ter que desperdiçar outros cliques só pra inspecionar o menu. ISSO NÃO PODE!
BAF – Pois é, é muito ruim, eu sei. Mas sabe que o João está certo? Dá uma olhada nessa tela aqui.

BAF – Imagina que a pessoa está no primeiro item da lista, ok? E que ela quer enviar um cartão de apresentação. Quantos cliques ela tem que dar?
Eu – Nove para chegar até “Networking” e um para selecionar. Que m****.
Eu – É… Acho que estou negligenciando as softkeys… Vou fazer o seguinte: usar a softkey da esquerda para abrir um menu, e a da direita para outras ações.

Eu – Tipo assim: o usuário pode continuar navegando com os direcionais e selecionando os itens da lista (tela da esquerda). Quando ele clicar numa palestra, ele vai para a tela que está à direita. Ali eu vou usar um título com breadcumbs, pra mostrar onde ele está e de onde ele veio (só que não pode ser feio que nem esse do Balsamiq!). E nas softkeys tem o menu (na esquerda) e um botão, quando necessário (na direita). E para minimizar essa coisa de desperdiçar cliques inspecionando o menu, vamos tentar usar as mesmas opções sempre que possível, ok?
BAF – É, agora parece bom.
Eu – Vamos ver o que os guris acham.
E AÍ, GURIS, O QUE VOCÊS ACHAM?
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